No dia 29 de setembro de 2006, um jato Legacy que ia em direção aos Estados Unidos, colidiu com o Boeing 737 da Gol, que estava saindo de Manaus em direção a Brasília, no voo 1907.

A colisão fez com que houvesse perda de parte significativa da asa esquerda do Boeing da Gol, levando os pilotos a perderem o controle da aeronave que sofreu separação estrutural no ar.

A separação estrutural acontece quando a aeronave se despedaça no ar e cai em partes, ou seja, ela não cai por inteiro. Ela se fragmenta e se espalha por uma grande faixa de terra.

Já o legacy, por ser menor e por ter sofrido um grau menor de impacto, conseguiu pousar na Base Área do Cachimbo, no Pará. Ele era pilotado por dois pilotos americanos: Joseph Lepore e Jan Paul Paladino que estavam conduzindo a aeronave da EMBRAER para Fort Lauderdale na Flórida..

A mesma sorte não teve o boeing da Gol neste acidente que levou a óbito 154 pessoas.

Onde caiu o avião

Os destroços acabaram se espalhando por uma faixa de terra de cerca de 20 quilômetros quadrados. Terra que era destinada a moradia dos índios Caiapós.

Mas, a questão vai além do espaço físico residencial. Precisamos compreender que os povos indígenas cultivam uma relação com a terra que extrapola os limites da mera ocupação territorial.

Desde o ensino fundamental, aprendemos sobre a conexão quase mística que os indígenas estabelecem com a natureza e o ambiente que habitam. Essa relação se confunde com sua sobrevivência, uma vez que é desta terra que provêm os recursos para sua existência.

O que eu quero dizer é: além de simplesmente morar, eles possuem um elo de aderência àquele local.

Portanto, a dispersão dos destroços da aeronave afetou profundamente os hábitos cotidianos desses indígenas, alterando seu acesso à fauna, à flora, à água – que foi contaminada pelo querosene -, ao peixe, ao mel de abelha, entre outros recursos.

Essa intrusão forçou a tribo a abandonar suas terras já que uma série de fatores contribuíram para que a mudança fosse necessária, mas, tem outro que é bem importante também.

Os índios acreditam que as pessoas ficam no lugar onde elas morrem.

Um dano além da matéria

E a gente está falando de um acidente que levou a óbito 154 pessoas, então segundo a crença deles, o espírito dessas pessoas ainda vagam por aquele local. Todo esse conjunto de fatores, de ordem material e imaterial, no caso, espiritual, levou com que a FUNAI procurasse o MPF do Mato Grosso para a realização de um acordo inédito no Brasil.

Antes disso acontecer, uma equipe de antropólogos se reuniu por 10 dias no local para a elaboração de um laudo técnico, juntamente com os indígenas.

A conclusão foi que, embora a terra seja propícia para alimentos, ela se tornou um cemitério por ter sido o local de óbito de 154 pessoas.

A Gol aceitou pagar a indenização no valor de 4 milhões, que foram revertidos para o Instituto Raoni. Com o acordo, a Gol deixa de ser responsável, dentre outras coisas, pela retirada da fuselagem e pela realização da limpeza do local.

Os índios tiveram que se mudar, mas até hoje ainda é possível encontrar os destroços da aeronave no local do acidente.

As vítimas conseguiram receber indenizações que vão de 100 mil a 1 milhão e meio.

Os pilotos americanos do Legacy foram condenados a reclusão de três anos, em 2015, mas até hoje não chegaram a ser presos.

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